O IMPACTO DA POLUIÇÃO SONORA NO RISCO CARDIOVASCULAR

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202504031908


Gabriela Ferreira Balbino
Heloísa Braz Ribeiro da Costa
João Pedro Wanderley Carneiro Campos
João Vitor Nóbrega Albuquerque
Maria Eduarda Del Frari
Maria Luiza Correia de Farias
Maria Paula Pereira de Souza
Romero Alencar Veras
Tiago José de Oliveira Dantas
Orientador: Prof. Dr. Pedro Salerno


1 TEMA

O IMPACTO DA POLUIÇÃO SONORA NO RISCO CARDIOVASCULAR

2 PERGUNTA CONDUTORA

Existe relação entre a poluição sonora e risco cardiovascular?

3 OBJETIVOS

3.1 Objetivo Geral

Descrever a relação e impacto da poluição sonora no sistema cardiovascular.

3.2 Objetivos Específicos

  • Analisar a relação entre a exposição à poluição sonora e a resposta hormonal no sistema cardiovascular;

  • Verificar quais doenças cardiovasculares são desencadeadas e agravadas em indivíduos submetidos a maior exposição sonora;

  • Identificar os impactos da poluição sonora na qualidade de vida

4 INTRODUÇÃO

A poluição sonora é um dos principais problemas presentes na sociedade moderna. Com o aumento populacional e urbanização, o ruído surge como um componente do cotidiano (Zennin, 2002). Atualmente, a poluição sonora, definida como o conjunto de ruídos manifestados ao mesmo tempo em um ambiente que supera 65 dB, é o terceiro maior problema ambiental no mundo (OMS, 2003). Segundo a OMS, o montante de vida saudável perdida em decorrência de doenças isquêmicas por causa da poluição sonora na Europa foi de 60 mil anos.

Em centros urbanos, principalmente em países emergentes, grandes populações são expostas a barulhos excessivos principalmente por causa do tráfego e indústrias (Geroges, 2004; Ye Yang et al., 2018). O aparelho auditivo humano suporta diversos níveis de exposição sonora, porém, não é indicado ultrapassar os 60 dB a fim de manter sua integridade (Munzel, et al.,2018). No entanto, os picos diários podem chegar a 85 dB (Pimentel-Souza, 1998). À noite, por mais que o indivíduo durma, seu aparelho auditivo não desliga e está suscetível a estímulos, que são interpretados pelo cérebro como fatores estressantes. Apesar do Governo Federal ter instituído limites de barulho à noite em 50 dB, esses limites não são respeitados em cidades grandes ou comunidades situadas perto de usinas, rodovias e aeroportos (Grandelle, 2011; BRASIL, ANO).

Comumente, os efeitos da poluição sonora são associados apenas ao comprometimento da audição, porém, vão muito além disso. Em 2003, Babisch descreveu duas maneiras de como o ruído pode afetar o corpo humano: a direta, que se relaciona com a audição, e a indireta, que se relaciona com efeitos cognitivos, emocionais, nervosos e hormonais. Também é relevante ressaltar que os efeitos da poluição sonora não são uniformes, dependendo do tempo de exposição, da condição de saúde prévia e questões sociais (Lacerda et al., 2005).

O sistema cardiovascular é um sistema muito afetado pelo barulho, em consequência da constante ativação do sistema nervoso simpático. Esse sistema estimula reações de luta e fuga, que deixam o indivíduo estressado e em estado de alerta devido ao aumento da liberação de substâncias como o cortisol e colesterol, que, em excesso, são nocivas ao coração. A longo prazo, tais consequências dessa exposição à poluição sonora culminam com patologias cardíacas, notoriamente a hipertensão (Pimentel-Souza, 1992; Tortora, 14 ed., 2019).

Esta pesquisa tem como propósito evidenciar a influência entre a poluição sonora e os riscos cardiovasculares, além de entender os mecanismos fisiopatológicos por trás das patologias associadas e as repercussões futuras.

5 METODOLOGIA

Este trabalho é uma Revisão Sistemática, com objetivo de sintetizar conhecimento a partir da análise abrangente de dados sobre o tema escolhido.

A pesquisa foi realizada baseada em 6 etapas: (1) escolha do tema e da pergunta condutora, (2) coleta de publicações nas bases de dados escolhidas, (3) estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão, (4) análise de dados escolhidos, (5) interpretação dos resultados encontrados e (6) apresentação da revisão e síntese de literatura.

Para elaborar a pergunta condutora, partindo do princípio de especificidade e claridade, foi definido como tema central a relação entre a poluição sonora e risco cardiovascular. Objetivou-se resultados positivos com a hipótese do impacto da poluição sonora no sistema cardiovascular. Assim, tem-se como pergunta norteadora: “Existe relação entre a poluição sonora e risco cardiovascular?”

Em seguida, utilizou-se as bases de dados National Library of Medicine (PubMed) e Scientific Eletronic Library Online (SciELO) para a construção do artigo e obtenção de dados. Os critérios de inclusão instituídos foram: artigos em Língua Portuguesa, Inglesa ou Espanhola; textos completos e disponíveis gratuitamente, publicados nos últimos 5 anos (2018 a 2023) e que abordassem os descritores escolhidos. Descartamos artigos duplicados, relatos de casos e publicados fora do período temporal determinado.

Para buscar artigos em concordância com os objetivos propostos nesta Revisão Sistemática, foram utilizadas as palavras chave indexadas aos Descritores em Ciência da Saúde (DeCS): (“NOISE POLLUTION”) AND (“CARDIOVASCULAR SYSTEM”) AND (“CARDIOVASCULAR DISEASE”). Os descritores foram combinados entre si pelo operador booleano “AND”.

6 RESULTADOS

A partir dos 12.387 estudos encontrados, 4.174 foram selecionados após o mecanismo de exclusão, dos quais 4.143 não atendiam ao critério de elegibilidade. Por conseguinte, após a leitura na íntegra, 22 artigos foram excluídos por apresentarem títulos irrelevantes, textos repetidos e por não atenderem a pergunta norteadora, totalizando 6 artigos na análise final como demonstrado no fluxograma a seguir.

Figura 1 – Fluxograma de seleção de artigos.

Fonte: Autores (2023)

Quadro 1 – Descrição sintetizada e níveis de evidência de cada estudo que compôs a revisão, Recife – PE, 2023

Autor, anoPaís de estudoObjetivo do artigoConclusão
Lee, Yongho; Lee, Seughyun; Lee, Wanhyung; 2023Coreia do SulEncontrar os efeitos da exposição sonora crônicaA constante exposição ao ruído provoca efeitos em diferentes sistemas do corpo
Bolm-Audorff, Ulrich et al; 2020AlemanhaPrimeiro e segundo objetivoA ativação do sistema nervoso simpático autônomo aumenta a frequência cardíaca, a liberação de corticotropino, os níveis de cortisol e a pressão sanguínea
Hadad, Omar et al; 2019AlemanhaPrimeiro e segundo objetivoRuído ambiental causa estresse, que afeta os sistemas nervoso autônomo e endócrino, modificando o funcionamento do metabolismo e aumentando a pressão arterial.
Pyko, Andrei et al; 2023SuéciaSegundo objetivoExposição a longo prazo ao barulho de tráfego e de ferrovia estão associados com aumento de incidência de doenças cardíacas isquêmicas.
Kim, Chloe S et al; 2022Estados UnidosPrimeiro objetivoA constante exposição ao barulho de aeronaves gerou mudanças no SNS, nos níveis de glicose sanguíneo e na taxa lipídica
Weihofen, Verena Mari et al;2019AlemanhaPrimeiro objetivoO ruído de aeronaves perturba o sono, resultando em sonolência diurna e regeneração do corpo prejudicada

Fonte: Autores (2023)

7 DISCUSSÃO

Baseando-se nos artigos selecionados, foi possível avaliar os efeitos da poluição sonora para além dos efeitos auditivos, correlacionando os efeitos com o sistema cardiovascular. Apesar de não haver certeza no mecanismo de efeito do barulho no sistema cardiovascular, foi conclusivo que os efeitos são decorrentes de uma cascata de reações de estresse ativadas pelos sistemas nervoso e endócrino (Bolm-Audorff, et al., 2020).

A ativação do sistema nervoso autônomo aumenta a liberação de catecolaminas, que aumentam a frequência cardíaca e estimulam a constrição vascular, aumentando a pressão sanguínea e do cortisol, que estimula processos inflamatórios, estresse oxidativo e disfunção endotelial. Em estudo com ratos, demonstrou que o barulho leva a consequências cardiovasculares similares aos seres humanos. Isto se deve ao estresse oxidativo que ocorre por aumento da formação de radicais livres (Hadad, et al., 2019).

O sistema endócrino, por sua vez, libera corticotropinas, que potencializam o efeito das catecolaminas. Os hormônios de estresse como cortisol e adrenalina desencadeiam reações hiperglicemiantes, que, a longo prazo, podem gerar resistência à insulina e acúmulo de gordura abdominal (Lee; Lee; Lee; 2023).

Foi concluído também que as respostas fisiológicas variam com os níveis e com o tempo de exposição, com maiores níveis de decibéis e mais tempo de exposição sendo mais prejudiciais. Estudos apontam que há uma correlação entre a exposição ao ruído e a diminuição da dilatação fluxo-mediada da artéria braquial. Os grupos com tempo de exposição entre 10 e 20 anos e o grupo com tempo de exposição maior que 20 anos apresentou, respectivamente, riscos de desenvolver hipertensão quatro e cinco vezes maior do que o grupo controle (Lee; Lee; Lee; 2023).

A exposição a barulhos no período da noite dificulta o processo de sono-vigília, além de diminuir a qualidade do sono ao prejudicar a transição da fase leve à fase profunda. Indivíduos com quadros de insônia ou privação de sono apresentam mudanças estruturais no cérebro como a diminuição do hipocampo. Nessa região está o sistema límbico, que é responsável pelas emoções, memórias e aprendizado, e sua atrofia é espelhada numa dificuldade de aprendizado e quadros de ansiedade, depressão e raiva. A constante alta de cortisol também se associa a diminuição de volume da massa cinzenta, responsável pelas capacidades de pensamento e de locomoção (Lee; Lee; Lee; 2023).

Compreender os efeitos da poluição sonora no sistema cardiovascular é relevante para entender seus principais impactos na saúde humana. Foi avaliado que o nível máximo de exposição ao barulho sem complicações é de 50 db, e valores acima de 85 db se associam a um aumento significativo de doenças desencadeadas ou agravadas. A maior parte da exposição é consequência de atividades relacionadas ao tráfego urbano, ferroviário, rodoviário e aéreo (Teixeira et al., 2021).

Sobre as doenças cardiovasculares presentes na seleção, foram apontadas como complicações adquiridas ou agravadas a hipertensão arterial, o acidente vascular cerebral, doença cardíaca isquêmica, insuficiência cardíaca, doença coronariana e infarto agudo do miocárdio. O risco cardiovascular relativo a essas doenças se relacionou principalmente com a disfunção endotelial em decorrência do estresse oxidativo, e foi estimado a partir de medidas de associação com intervalo de confiança (IC), riscos relativos (RR), taxa de risco (HR), razões de prevalência (RP) e razões de probabilidade (OR) (Bolm-Aldorff, et al., 2020).

No estudo de caso‐controle com padrões de exposição semelhantes e três níveis de exposição ao ruído (controle, ruído30, ruído60), foi encontrada uma relação linear entre febre aftosa e exposição. Nesse mesmo estudo, foi relatado um aumento acentuado nos níveis plasmáticos de adrenalina entre os três níveis de ruído (Lee; Lee; Lee; 2023).

Porém, os estudos revisados apresentam limitações que precisam ser superadas em futuros estudos. Uma limitação percebida foi a falta de uniformidade na quantificação do ruído, com alguns estudos quantificando em decibel e outros avaliando com base no incômodo sentido. Outra limitação encontrada foi a divergência na definição dos valores do que se considera hipertensão, com a maior parte dos estudos determinando em 140/90 mmHg. Entretanto, foram encontrados estudos que quantificam em 130/80 mmHg ou 160/100 mmHg.

8 CONCLUSÃO

Até onde vão as evidências, há uma influência da poluição sonora sobre o sistema cardiovascular. Entretanto, ainda são escassas e mais trabalhos acerca do tema são necessários para que seja mais conclusiva.

9 REFERÊNCIAS

Bolm-Audorff, U. et al. Occupational Noise and Hypertension Risk: A Systematic Review and Meta-Analysis. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 17, p. 6281, 28 ago. 2020.

Brasileiro, Verônica Maria Miranda. “Poluição sonora.” Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados (2012).

Bressane, Adriano, et al. “Sistema de apoio à avaliação de impactos da poluição sonora sobre a saúde pública.” Cadernos de Saúde Pública 32 (2016): e00021215.

Grandelle, Renato. “Poluição sonora aumenta a incidência de doenças e mortes.” Jornal O Globo 3.04 (2011).

Hadad, O. et al. The cardiovascular effects of noise. Deutsches Aerzteblatt Online, 5 abr. 2019.

 Kim, C. S. et al. Long-term aircraft noise exposure and risk of hypertension in the Nurses’ Health Studies. Environmental Research, p. 112195, out. 2021.

Krittanawong, C. et al. Noise Exposure and Cardiovascular Health. Current Problems in Cardiology, v. 48, n. 12, p. 101938, 1 dez. 2023.

Lee, Y.; Lee, S.-H.; Lee, W. Occupational and Environmental Noise Exposure and Extra‐Auditory Effects on Humans: A Systematic Literature Review. Geohealth, v. 7, n. 6, 1 jun. 2023.

Münzel, Thomas, et al. “Environmental noise and the cardiovascular system.” Journal of the American College of Cardiology 71.6 (2018): 688-697.

OMS, Organização Mundial da Saúde. “Burden of disease from environmental noise. Quantification of healthy life years lost in Europe. Denmark”, 2011.

Pyko , A. et al. Long-Term Exposure to Transportation Noise and Ischemic Heart Disease: A Pooled Analysis of Nine Scandinavian Cohorts. v. 131, n. 1, 1 jan. 2023.

Pimentel Souza, F.. “A poluição sonora ataca traiçoeiramente o corpo.” Belo Horizonte: Meio Ambiente em Diversos Enfoques–Secretaria Municipal do Meio Ambiente (1992).

Pimentel Souza, F. e Álvares, P. A. S. “A poluição sonora urbana no trabalho e na saúde.” Instituto de Ciências Biológicas. Universidade Federal de Minas Gerais. Laboratório de Psicofisiologia. Belo Horizonte (1998).

Teixeira, L. R. et al. The effect of occupational exposure to noise on ischaemic heart disease, stroke and hypertension: A systematic review and meta-analysis from the WHO/ILO Joint   Estimates   of   the   Work-Related  Burden of Disease and Injury. Environment International, v. 154, p. 106387, set. 2021.

Tortora, G. J. Princípios de anatomia e fisiologia. 14 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019, 1201 p.

Vianna, K. M. P. Poluição sonora no município de São Paulo: avaliação do ruído e o impacto da exposição na saúde da população. Diss. Universidade de São Paulo, 2014.

Weihofen , V. M. et al. Aircraft noise and the risk of stroke. Deutsches Aerzteblatt Online, 5 abr. 2019.